segunda-feira, 17 de maio de 2010

#4# - Boneco de Cera

A primeira vez que o vi, lembrei-me de um boneco de cera. A pele lisa e rosada, as bochechas e o pescoço ligeiramente inchados, o nariz e os lábios salientes, o cabelo penteado e bem fixo, além do terno oportuno que dava um ar de artificialidade. O cheiro das flores era agradável.

Aqueles parentes que eu havia visto uma ou duas vezes na vida estavam todos lá, cumprimentava-os sem interesse, era, até certo ponto, doloroso falar com aquelas pessoas. Os parentes mais afastados causam-me aversão, é estranho pensarmos naquelas pessoas como parte de nós, sangue e história, uma ligação forte, mas somente nesse sentido, pois caso desapareçam ou morram não haverá nada de diferente, daí a aversão: precisamos fingir nos importar.

Nos últimos tempos, o meu tio viveu e morreu miseravelmente, velho e doente os anos recentes haviam sido penosos: separação, desemprego, velhice, gravidez precoce da filha, abandono. Todos nós o esquecemos quando era vivo e agora nos reuníamos para sua morte. Não me sentia triste, estava aliviado, era melhor desse jeito, acredito que esse pensamento ecoava por todos, exceto pelas filhas.

Quando me chamaram para acompanhar minhas velhas tias e primas na escolha da coroa de flores, segui resignado. Nunca havia feito aquilo na vida.

O estabelecimento ficava a alguns metros do velório, parecia mais uma garagem que foi improvisada como comércio de flores. O vendedor nos mostrou em silêncio alguns modelos e flores.Tinhas as mãos calejadas e um olhar nada sonolento, apesar do horário e da chatice reinante. A coroa de flores era comum, um monte de flores misturadas e prensadas que não faziam sentido nenhum. Que importância havia naquilo tudo? Para que aquelas flores?

- Essas flores parecem murchas – comentou a minha tia com o vendedor.
- Não senhora, são todas novas.
- Não, olha isso! – apontou para uns crisântemos – estão murchas e olha! – comentou com todos – parecem que as flores estão mal arranjadas!

O vendedor tentou defender aquela coroa, mas foi inútil, o senso estético das minhas tias era inquestionável, solicitaram um novo arranjo com flores novas e com mais “capricho”.

Quando saímos, minhas tias diziam:

- Viu que esperto, tentando nos vender flores velhas!
- Ah, sim.
- Acho que foi caro...
- É, mas vamos dividir entre todos...

Uma hora depois, fomos chamados para uma nova avaliação, o vendedor trazia um sorriso. Minhas tias olharam novamente a coroa, examinaram e discutiram entre si. Não percebi nada de diferente, era exatamente a mesma mixórdia de flores, cores e cheiros.

Minhas tias reprovaram a coroa, mas não pediram que a refizesse, exigiram um desconto. O vendedor negou, defendeu o seu trabalho, os custos, as flores, mas no final cedeu, bastante contrariado.

A coroa foi levada para o boneco de cera.

- Que ótimo esse desconto! – comentou minha tia.
- Pois é, foi um preço justo!
- Acho que se eu chorasse mais um pouquinho sairia mais barato...- comentou por último e todos rimos.


06/07/2009

domingo, 2 de maio de 2010

#3# - O Broche

A espera revelou-se mais angustiante do que imaginei, além disso, o atraso de mais de dez minutos perturbou-me de maneira estranha. O terminal estava cheio, todos embarcavam e desembarcavam apressados. Seria difícil encontrá-la, ainda mais porque, na véspera, Isabel havia comunicado sobre o seu novo corte de cabelo. Isso não me agradou, Isabel tinha longos cabelos castanhos, lisinhos...Era um pecado cortar aquele cabelo! Na última vez, ela estava radiante e muito excitada, como estava feliz! Falava a todo instante da viagem, a semana inteira, não parecia incomodada com a separação.

Um som metálico anunciava a chegada do ônibus. Isabel saltou tranquila, trazia junto sua inseparável mochila.

- Olá
- Oi - respondeu Isabel.

O abraço e o beijo foram mais curtos do que imaginei.

- Cansada?
- Só um pouco e você?

O cabelo não me agradou, essa Isabel parecia diferente, seu gesto, gírias, seus olhos mais afogados, tinha um hálito de cigarro mentolado – “Mas ela não fuma! Fuma?” O que mais assustava era o seu ar de independência.

- Até que você me achou fácil, pensei que não fosse me reconhecer – disse Isabel passando as mãos pelos cabelos.
- A mochila – apontei – reconheci pela mochila.
- Ahh....
- Cadê aquele broche que eu te dei? Você sempre usava na mochila.
- Eu tirei – respondeu Isabel.
- Tirou?
- Cadê esse pessoal?
- Quem?
- Eu chamei alguns amigos...
- Sei...

O terminal fervilhava, um novo sinal anunciava mais aglomeração.

- Acho que eles não virão – lamentou Isabel – acabei de receber uma mensagem.
- Por que não me avisou sobre eles?
- Eu esqueci.

Conformada, Isabel e eu pegamos um táxi para casa. Durante todo o percurso contou sobre a sua temporada, narrava com entusiasmo e uma alegria que às vezes me incomodava. Ouvi com falso interesse, estava mais preocupado com o broche, era como um símbolo da nossa união.

- Quanto tempo você pretende ficar?
- O necessário – respondeu Isabel em um tom misterioso.
- Necessário?

Ela sorriu e por alguns segundos entre o mexer do lábio e o mostrar dos dentes, lembrei-me da velha Isabel, a Isabel “dos bons tempos” que sempre dava um risinho para mim quando nos conhecemos. Essa era a sua resposta para as minhas angustias, um sorrisinho.

Quando chegamos, todos estavam em casa, depois de muita conversa decidiram seqüestrar Isabel e levá-la para matar a saudade de todos os amigos, pais e primos. Resolvi ficar e antes de Isabel sair, pedi que voltasse cedo para que pudéssemos jantar juntos. Ela concordou. Não me lembrava a última vez em que ficamos a sós, sempre tinha tanta gente, todos rodeando, ligando, chamando, convidando...Isabel adorava toda aquela atenção, procurava aproveitar ao máximo, animava-se facilmente, mantinha todos bem próximos. Eu não me importava com aquilo, mas, às vezes, incomodava. Mais tarde, Isabel ligou e avisou que não voltaria tão cedo. Estava muito alegre, falava esbaforida, soltava risinhos roucos.

- Desculpa, descul...eu sei...eu sei...Espera! Espera! Não, não é com você...mas é que eu não os vejo...Não calma...Teremos tempo...Escuta! Vem para cá, a gente se encontra...todo mundo.

- Isso todo mundo! – gritava vozes ao fundo.
- Por que não me avisou antes?
- Eu esqueci...

Por um segundo pensei em aceitar, mas não...Eu não queria ver aquelas pessoas, beijar e apertar mãos, fingir que as coisas estão bem. Aquelas reuniões eram até agradáveis, mas havia algo de humilhante, pois sempre calhava de Isabel narrar as suas peripécias e era necessário ter muita paciência, tudo era sempre sobre festas e bebidas. Após desligar o telefone, lembrei-me do broche: “Talvez tenha perdido e ficou com medo de me contar...Vou comprar outro!”. Resolvi sair e procura nas lojas um novo broche. Era um modelo antigo de bronze com as nossa iniciais, agora seria difícil acha um igual, mas o importante era que ela usasse na mochila, isso era o que importava.

Isabel apareceu bem cedo no dia seguinte, tinha um olhar engraçado, as bochechas e o pescoço pareciam um pouco inchados. Abraçou-me.

- Como foi a noite?
- Boa...- respondeu
- Olha o que eu comprei – disse tirando um pacotinho branco do meu bolso.
- Ahhh...suspirou Isabel – Outro?
- Usa na mochila – pedi.
- Sim, depois eu coloco...- disse, depositando o broche sobre a mesinha da sala.

Não insisti.

- A que horas você tem que ir?
- À tarde.
- Então temos tempo? – perguntei com olhos suplicantes.
- Temos – respondeu Isabel com aquele risinho.

Isabel embarcou rapidamente, despediu-se de mim com um beijo, já estava longe.

- É uma pena eu não poder ficar mais tempo, mas eu te avisei...
- Foi muito rápido – murmurei.
- Olha, você precisa ser forte, durante esse tempo da nossa separação podem acontecer tantas coisas...
- O quê?

Ela sorriu. Era a sua resposta.

“Que tipo de coisa acontece em tão pouco tempo de separação? Que tipo de coisa faz com que já não saibamos se estamos diante da pessoa que realmente amamos algum dia?. Cade aquela porção de Isabel que existia e que eu conhecia? Era isso então? Eu amava só um pedaço de Isabel? Um pedaço tão minúsculo que quando contrastado com o todo restava muito pouco...Ou talvez não seja amor... Será que Isabel sabia disso? Eu devia perguntar, mas onde esta aquela antiga Isabel?"

Depois de algumas horas após o embarque o celular vibrou. Mensagem:

Não se esqueça de colocar o broche!

Isabel sorriu. Começou a digitar pacientemente:

Eu esque_

“Não, melhor não, não agora. Mais tarde eu envio a mensagem, alguma outra hora”, pensou Isabel.

E, tranqüilamente, pouso a cabeça sobre o encosto e continuou a admirar a paisagem corrente.



8/8/2009