sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Preguiça

Faz muito tempo que não escrevo nada...A minha preguiça é enorme, mas juro que tenho várias ideias...As férias são malignas. Como escreveu Drummond: "A minha vontade é forte, a minha disposição de obedecer-lhe é fraca".

segunda-feira, 17 de maio de 2010

#4# - Boneco de Cera

A primeira vez que o vi, lembrei-me de um boneco de cera. A pele lisa e rosada, as bochechas e o pescoço ligeiramente inchados, o nariz e os lábios salientes, o cabelo penteado e bem fixo, além do terno oportuno que dava um ar de artificialidade. O cheiro das flores era agradável.

Aqueles parentes que eu havia visto uma ou duas vezes na vida estavam todos lá, cumprimentava-os sem interesse, era, até certo ponto, doloroso falar com aquelas pessoas. Os parentes mais afastados causam-me aversão, é estranho pensarmos naquelas pessoas como parte de nós, sangue e história, uma ligação forte, mas somente nesse sentido, pois caso desapareçam ou morram não haverá nada de diferente, daí a aversão: precisamos fingir nos importar.

Nos últimos tempos, o meu tio viveu e morreu miseravelmente, velho e doente os anos recentes haviam sido penosos: separação, desemprego, velhice, gravidez precoce da filha, abandono. Todos nós o esquecemos quando era vivo e agora nos reuníamos para sua morte. Não me sentia triste, estava aliviado, era melhor desse jeito, acredito que esse pensamento ecoava por todos, exceto pelas filhas.

Quando me chamaram para acompanhar minhas velhas tias e primas na escolha da coroa de flores, segui resignado. Nunca havia feito aquilo na vida.

O estabelecimento ficava a alguns metros do velório, parecia mais uma garagem que foi improvisada como comércio de flores. O vendedor nos mostrou em silêncio alguns modelos e flores.Tinhas as mãos calejadas e um olhar nada sonolento, apesar do horário e da chatice reinante. A coroa de flores era comum, um monte de flores misturadas e prensadas que não faziam sentido nenhum. Que importância havia naquilo tudo? Para que aquelas flores?

- Essas flores parecem murchas – comentou a minha tia com o vendedor.
- Não senhora, são todas novas.
- Não, olha isso! – apontou para uns crisântemos – estão murchas e olha! – comentou com todos – parecem que as flores estão mal arranjadas!

O vendedor tentou defender aquela coroa, mas foi inútil, o senso estético das minhas tias era inquestionável, solicitaram um novo arranjo com flores novas e com mais “capricho”.

Quando saímos, minhas tias diziam:

- Viu que esperto, tentando nos vender flores velhas!
- Ah, sim.
- Acho que foi caro...
- É, mas vamos dividir entre todos...

Uma hora depois, fomos chamados para uma nova avaliação, o vendedor trazia um sorriso. Minhas tias olharam novamente a coroa, examinaram e discutiram entre si. Não percebi nada de diferente, era exatamente a mesma mixórdia de flores, cores e cheiros.

Minhas tias reprovaram a coroa, mas não pediram que a refizesse, exigiram um desconto. O vendedor negou, defendeu o seu trabalho, os custos, as flores, mas no final cedeu, bastante contrariado.

A coroa foi levada para o boneco de cera.

- Que ótimo esse desconto! – comentou minha tia.
- Pois é, foi um preço justo!
- Acho que se eu chorasse mais um pouquinho sairia mais barato...- comentou por último e todos rimos.


06/07/2009

domingo, 2 de maio de 2010

#3# - O Broche

A espera revelou-se mais angustiante do que imaginei, além disso, o atraso de mais de dez minutos perturbou-me de maneira estranha. O terminal estava cheio, todos embarcavam e desembarcavam apressados. Seria difícil encontrá-la, ainda mais porque, na véspera, Isabel havia comunicado sobre o seu novo corte de cabelo. Isso não me agradou, Isabel tinha longos cabelos castanhos, lisinhos...Era um pecado cortar aquele cabelo! Na última vez, ela estava radiante e muito excitada, como estava feliz! Falava a todo instante da viagem, a semana inteira, não parecia incomodada com a separação.

Um som metálico anunciava a chegada do ônibus. Isabel saltou tranquila, trazia junto sua inseparável mochila.

- Olá
- Oi - respondeu Isabel.

O abraço e o beijo foram mais curtos do que imaginei.

- Cansada?
- Só um pouco e você?

O cabelo não me agradou, essa Isabel parecia diferente, seu gesto, gírias, seus olhos mais afogados, tinha um hálito de cigarro mentolado – “Mas ela não fuma! Fuma?” O que mais assustava era o seu ar de independência.

- Até que você me achou fácil, pensei que não fosse me reconhecer – disse Isabel passando as mãos pelos cabelos.
- A mochila – apontei – reconheci pela mochila.
- Ahh....
- Cadê aquele broche que eu te dei? Você sempre usava na mochila.
- Eu tirei – respondeu Isabel.
- Tirou?
- Cadê esse pessoal?
- Quem?
- Eu chamei alguns amigos...
- Sei...

O terminal fervilhava, um novo sinal anunciava mais aglomeração.

- Acho que eles não virão – lamentou Isabel – acabei de receber uma mensagem.
- Por que não me avisou sobre eles?
- Eu esqueci.

Conformada, Isabel e eu pegamos um táxi para casa. Durante todo o percurso contou sobre a sua temporada, narrava com entusiasmo e uma alegria que às vezes me incomodava. Ouvi com falso interesse, estava mais preocupado com o broche, era como um símbolo da nossa união.

- Quanto tempo você pretende ficar?
- O necessário – respondeu Isabel em um tom misterioso.
- Necessário?

Ela sorriu e por alguns segundos entre o mexer do lábio e o mostrar dos dentes, lembrei-me da velha Isabel, a Isabel “dos bons tempos” que sempre dava um risinho para mim quando nos conhecemos. Essa era a sua resposta para as minhas angustias, um sorrisinho.

Quando chegamos, todos estavam em casa, depois de muita conversa decidiram seqüestrar Isabel e levá-la para matar a saudade de todos os amigos, pais e primos. Resolvi ficar e antes de Isabel sair, pedi que voltasse cedo para que pudéssemos jantar juntos. Ela concordou. Não me lembrava a última vez em que ficamos a sós, sempre tinha tanta gente, todos rodeando, ligando, chamando, convidando...Isabel adorava toda aquela atenção, procurava aproveitar ao máximo, animava-se facilmente, mantinha todos bem próximos. Eu não me importava com aquilo, mas, às vezes, incomodava. Mais tarde, Isabel ligou e avisou que não voltaria tão cedo. Estava muito alegre, falava esbaforida, soltava risinhos roucos.

- Desculpa, descul...eu sei...eu sei...Espera! Espera! Não, não é com você...mas é que eu não os vejo...Não calma...Teremos tempo...Escuta! Vem para cá, a gente se encontra...todo mundo.

- Isso todo mundo! – gritava vozes ao fundo.
- Por que não me avisou antes?
- Eu esqueci...

Por um segundo pensei em aceitar, mas não...Eu não queria ver aquelas pessoas, beijar e apertar mãos, fingir que as coisas estão bem. Aquelas reuniões eram até agradáveis, mas havia algo de humilhante, pois sempre calhava de Isabel narrar as suas peripécias e era necessário ter muita paciência, tudo era sempre sobre festas e bebidas. Após desligar o telefone, lembrei-me do broche: “Talvez tenha perdido e ficou com medo de me contar...Vou comprar outro!”. Resolvi sair e procura nas lojas um novo broche. Era um modelo antigo de bronze com as nossa iniciais, agora seria difícil acha um igual, mas o importante era que ela usasse na mochila, isso era o que importava.

Isabel apareceu bem cedo no dia seguinte, tinha um olhar engraçado, as bochechas e o pescoço pareciam um pouco inchados. Abraçou-me.

- Como foi a noite?
- Boa...- respondeu
- Olha o que eu comprei – disse tirando um pacotinho branco do meu bolso.
- Ahhh...suspirou Isabel – Outro?
- Usa na mochila – pedi.
- Sim, depois eu coloco...- disse, depositando o broche sobre a mesinha da sala.

Não insisti.

- A que horas você tem que ir?
- À tarde.
- Então temos tempo? – perguntei com olhos suplicantes.
- Temos – respondeu Isabel com aquele risinho.

Isabel embarcou rapidamente, despediu-se de mim com um beijo, já estava longe.

- É uma pena eu não poder ficar mais tempo, mas eu te avisei...
- Foi muito rápido – murmurei.
- Olha, você precisa ser forte, durante esse tempo da nossa separação podem acontecer tantas coisas...
- O quê?

Ela sorriu. Era a sua resposta.

“Que tipo de coisa acontece em tão pouco tempo de separação? Que tipo de coisa faz com que já não saibamos se estamos diante da pessoa que realmente amamos algum dia?. Cade aquela porção de Isabel que existia e que eu conhecia? Era isso então? Eu amava só um pedaço de Isabel? Um pedaço tão minúsculo que quando contrastado com o todo restava muito pouco...Ou talvez não seja amor... Será que Isabel sabia disso? Eu devia perguntar, mas onde esta aquela antiga Isabel?"

Depois de algumas horas após o embarque o celular vibrou. Mensagem:

Não se esqueça de colocar o broche!

Isabel sorriu. Começou a digitar pacientemente:

Eu esque_

“Não, melhor não, não agora. Mais tarde eu envio a mensagem, alguma outra hora”, pensou Isabel.

E, tranqüilamente, pouso a cabeça sobre o encosto e continuou a admirar a paisagem corrente.



8/8/2009

quinta-feira, 15 de abril de 2010

#2# - Voo número 5

O embarque dos passageiros foi tranquilo, todos tomaram os seus assentos rapidamente, guiados pela aeromoça. G. sentou-se no banco do corredor, apesar de desejar o assento próximo à janela. Não se sentia bem, por isso queria apenas sentar em um cantinho e ficar quieto. Ao seu lado estava uma jovem elegante, sentada ereta que se distraia folheando alguma revista. Logo que ela havia sentado, G. sentiu o seu perfume, um cheiro difícil de se acostumar.

Os passageiros eram variados: jovens estudantes, uma criança, adultos e idosos resmungavam e chamavam pela aeromoça sem parar, acalmaram-se somente com a decolagem, mas logo recomeçaram.

G. não se sentia confortável, aliás nos últimos tempos não ia bem de saúde, uma crescente azia perturbava-lhe sempre, além das dores nas costas. A poltrona regulável parecia uma cama de pregos, por mais que se ajustasse, algo espetava. A jovem que ia ao seu lado exalava um cheiro enjoativo toda vez que mexia no cabelo. G. contorceu-se procurando o encosto e disfarçadamente fitou a jovem, havia nela algo de artificial, os olhos pintados, as sobrancelhas rentes, bochechas em fogo e os lábios... "É uma outra pessoa sem essa maquiagem", pensou G.

- Deseja beber algo? - perguntou a aeromoça.
- Não, obrigado.
- E a senhora?
- Um suco de morango, por favor.

O almoço seguiu tranquilo, todos mastigavam, exceto G., seu desconforto permanecia. Ver as pessoas ao seu lado comerem causava um ligeiro arrepio. Em certo momento, sentiu sede e uma estranha vontade de tomar o suco da jovem, o suco tinha aspeto de detergente. Quando ela deixou o seu acento por alguns minutos - "banheiro", pensou G. - pegou o copo e tomou um gole discreto.

- Doce demais... - resmungou com uma careta.

Do outro lado, uma mulher entoava baixinho uma canção de ninar:

- Na, na, na...na, na, na...Meu filhinho, filho, não pode....Aqui não é lugar...Assim...assim...

A criança devia ter três ou quatro anos e chorava forte. G. supôs que a criança deseja correr pelo corredor. A criança esperneava maléficamente. A cena trouxe a lembrança de sua velha mãe, um saudosismo amargo...A jovem voltou, desabou sobre o assento e novamente o perfume espalhou, mas agora misturado com o choro, o gosto do suco, a mastigação, a azia e a dor nas costas, tudo ocupava os seus sentidos numa crescente sensação de desconforto.

- O senhor está bem?
- Sim, sim, não se preocupe...
- Não me parece muito bem...

G. não respondeu, cada movimento dela, cada mínimo gesto, contribuía para o odor do perfume ficar mais forte. Além disso, era assustador mirar aqueles lábios vermelhos...Sentiu uma imensa vontade de ver aquela moça sem maquiagem...

Todos foram interrompidos pelo aviso de turbulência, ajustaram os cintos e... começou. No início, eram pequenas vibrações que iam e vinham, na terceira volta, adquiriu grande força. G. procurou fixar as mãos no apoio do assento, neste mesmo instante, a jovem teve a mesma reação, porém utilizou o mesmo apoio de G., ficando com a mão sobreposta a dele.

"Que mão gelada!", pensou.

Estranhas risadas metálicas surgiam sem parar da fuselagem. As vozes dos passageiros aumentavam e confundia-se com a turbulência, o choro da criança parecia mais alto. G sentia seus órgãos chacoalhar, mas logo se sentiu melhor, pois as dores nas costas e a azia desapareceram. Olhando em volta pode notar que a garota ao seu lado estava encharcada, de seus olhos escorriam grossas lágrimas que descia até os lábios, os olhos estavam maiores, as pálpebras estavam negras e formavam grandes manchas escorridas, o vermelho dos lábios adquiriu, com as lágrimas, um tom vivo, um rubor intenso.

- Os seus lábios...a boca - apontava G. - está sangrando, sangue!

Ela parecia não entender, mas depois de alguns segundos, levou a mão à boca e com a palma da mão esfregou os lábios para baixo, seu rosto adquiriu um aspecto disforme com o borrão vermelho esparramado pelo queixo. Ao olhar a sua mão, ficou histérica e soltou um grito de sereia, agitando-se ainda mais até esbarrar no suco de morango e derrubá-lo sobre G. Aquele líquido viscoso logo penetrou pelas calças e escorria lentamente sobre suas pernas...A última coisa que G. notou foi o repentino sumiço do choro da criança.

Depois, tudo se misturou com o ar gelado e desapareceu.


20/07/2009





sábado, 10 de abril de 2010

#1# - A Ameaça

Quando Nelson chegou a sua mesa de trabalho, encontrou aquele pequeno bilhete digitado, estava com as dobras bem marcadas, feitos à unha. A agradável surpresa logo fez crescer nele um temor incontrolável. Era uma ameaça. Mas de quem? E por quê? Sempre fora um homem pacato, sem inimigos e desavenças. Nunca ofendeu ninguém, nunca brigou, discutiu, nem traiu, mas agora era ameaçado. O bilhete não estava assinado.

As horas de trabalho até o fim do expediente foram supliciosas, uma inquietação ardia sob o seu estômago , não era só medo, mas algo diferente. Pensava em cada possibilidade, em cada ato, em cada palavra pronunciada. Nada. Nada. Tudo não faz sentido. Passou o dia calado, não ousava olhar para ninguém do escritório. Será que era o Rodrigues? Não. Talvez o Ernesto? Também não. Calculava cada pessoa, mas não chegava em ninguém. Pensou em ciúmes, no entanto, ciúmes de quem e do o quê? Ocupava um cargo medíocre, não namorava, não tinha posses...

Todos que Nelson conhecia eram simpáticos e sinceros com ele, não havia motivos, nenhum motivo. Os dias seguintes foram como o primeiro, buscava razões, pessoas e atos que justificassem aquele bilhete. Não mostrou o bilhete para ninguém. Tentou comentar indiretamente com os conhecidos sobre algum caso de desavença ou ofensa que tenha ocorrido, mas todos diziam: "- Nada aconteceu, o escritório está em paz".

Conforme o tempo passava, a angústia aumentava, ao mesmo tempo, sentia uma lacuna em sua vida, lacuna que talvez preenchesse os motivos do bilhete, contudo, por mais que se esforçasse, não lembrava de nenhum ato exacerbado. Sua vida rumava sempre em uma mediocridade navegável, sem saltos ou quedas. A vida inteira em atos contidos.

Não sentia mais medo pela ameaça, sentia pena, muita pena de si mesmo. Não achava em sua vida inteira um ato que justificasse ou que fosse digno daquele bilhete. Deseja ardentemente que tivesse feito algo contra alguém, xingado, humilhado, traído, trapaceado, mas não. Nada. Aquele bilhete parecia cada vez mais significar algo que ele deveria ter vivido, sentia em seu peito que o bilhete de ameaça era algo perdido em sua vida, que talvez ele pudesse achar, no entanto, era preciso viver, viver como nunca vivera antes.


16/11/ 2008