A primeira vez que o vi, lembrei-me de um boneco de cera. A pele lisa e rosada, as bochechas e o pescoço ligeiramente inchados, o nariz e os lábios salientes, o cabelo penteado e bem fixo, além do terno oportuno que dava um ar de artificialidade. O cheiro das flores era agradável.
Aqueles parentes que eu havia visto uma ou duas vezes na vida estavam todos lá, cumprimentava-os sem interesse, era, até certo ponto, doloroso falar com aquelas pessoas. Os parentes mais afastados causam-me aversão, é estranho pensarmos naquelas pessoas como parte de nós, sangue e história, uma ligação forte, mas somente nesse sentido, pois caso desapareçam ou morram não haverá nada de diferente, daí a aversão: precisamos fingir nos importar.
Nos últimos tempos, o meu tio viveu e morreu miseravelmente, velho e doente os anos recentes haviam sido penosos: separação, desemprego, velhice, gravidez precoce da filha, abandono. Todos nós o esquecemos quando era vivo e agora nos reuníamos para sua morte. Não me sentia triste, estava aliviado, era melhor desse jeito, acredito que esse pensamento ecoava por todos, exceto pelas filhas.
Quando me chamaram para acompanhar minhas velhas tias e primas na escolha da coroa de flores, segui resignado. Nunca havia feito aquilo na vida.
O estabelecimento ficava a alguns metros do velório, parecia mais uma garagem que foi improvisada como comércio de flores. O vendedor nos mostrou em silêncio alguns modelos e flores.Tinhas as mãos calejadas e um olhar nada sonolento, apesar do horário e da chatice reinante. A coroa de flores era comum, um monte de flores misturadas e prensadas que não faziam sentido nenhum. Que importância havia naquilo tudo? Para que aquelas flores?
- Essas flores parecem murchas – comentou a minha tia com o vendedor.
- Não senhora, são todas novas.
- Não, olha isso! – apontou para uns crisântemos – estão murchas e olha! – comentou com todos – parecem que as flores estão mal arranjadas!
O vendedor tentou defender aquela coroa, mas foi inútil, o senso estético das minhas tias era inquestionável, solicitaram um novo arranjo com flores novas e com mais “capricho”.
Quando saímos, minhas tias diziam:
- Viu que esperto, tentando nos vender flores velhas!
- Ah, sim.
- Acho que foi caro...
- É, mas vamos dividir entre todos...
Uma hora depois, fomos chamados para uma nova avaliação, o vendedor trazia um sorriso. Minhas tias olharam novamente a coroa, examinaram e discutiram entre si. Não percebi nada de diferente, era exatamente a mesma mixórdia de flores, cores e cheiros.
Minhas tias reprovaram a coroa, mas não pediram que a refizesse, exigiram um desconto. O vendedor negou, defendeu o seu trabalho, os custos, as flores, mas no final cedeu, bastante contrariado.
A coroa foi levada para o boneco de cera.
- Que ótimo esse desconto! – comentou minha tia.
- Pois é, foi um preço justo!
- Acho que se eu chorasse mais um pouquinho sairia mais barato...- comentou por último e todos rimos.
06/07/2009
Aqueles parentes que eu havia visto uma ou duas vezes na vida estavam todos lá, cumprimentava-os sem interesse, era, até certo ponto, doloroso falar com aquelas pessoas. Os parentes mais afastados causam-me aversão, é estranho pensarmos naquelas pessoas como parte de nós, sangue e história, uma ligação forte, mas somente nesse sentido, pois caso desapareçam ou morram não haverá nada de diferente, daí a aversão: precisamos fingir nos importar.
Nos últimos tempos, o meu tio viveu e morreu miseravelmente, velho e doente os anos recentes haviam sido penosos: separação, desemprego, velhice, gravidez precoce da filha, abandono. Todos nós o esquecemos quando era vivo e agora nos reuníamos para sua morte. Não me sentia triste, estava aliviado, era melhor desse jeito, acredito que esse pensamento ecoava por todos, exceto pelas filhas.
Quando me chamaram para acompanhar minhas velhas tias e primas na escolha da coroa de flores, segui resignado. Nunca havia feito aquilo na vida.
O estabelecimento ficava a alguns metros do velório, parecia mais uma garagem que foi improvisada como comércio de flores. O vendedor nos mostrou em silêncio alguns modelos e flores.Tinhas as mãos calejadas e um olhar nada sonolento, apesar do horário e da chatice reinante. A coroa de flores era comum, um monte de flores misturadas e prensadas que não faziam sentido nenhum. Que importância havia naquilo tudo? Para que aquelas flores?
- Essas flores parecem murchas – comentou a minha tia com o vendedor.
- Não senhora, são todas novas.
- Não, olha isso! – apontou para uns crisântemos – estão murchas e olha! – comentou com todos – parecem que as flores estão mal arranjadas!
O vendedor tentou defender aquela coroa, mas foi inútil, o senso estético das minhas tias era inquestionável, solicitaram um novo arranjo com flores novas e com mais “capricho”.
Quando saímos, minhas tias diziam:
- Viu que esperto, tentando nos vender flores velhas!
- Ah, sim.
- Acho que foi caro...
- É, mas vamos dividir entre todos...
Uma hora depois, fomos chamados para uma nova avaliação, o vendedor trazia um sorriso. Minhas tias olharam novamente a coroa, examinaram e discutiram entre si. Não percebi nada de diferente, era exatamente a mesma mixórdia de flores, cores e cheiros.
Minhas tias reprovaram a coroa, mas não pediram que a refizesse, exigiram um desconto. O vendedor negou, defendeu o seu trabalho, os custos, as flores, mas no final cedeu, bastante contrariado.
A coroa foi levada para o boneco de cera.
- Que ótimo esse desconto! – comentou minha tia.
- Pois é, foi um preço justo!
- Acho que se eu chorasse mais um pouquinho sairia mais barato...- comentou por último e todos rimos.
06/07/2009

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