sábado, 10 de abril de 2010

#1# - A Ameaça

Quando Nelson chegou a sua mesa de trabalho, encontrou aquele pequeno bilhete digitado, estava com as dobras bem marcadas, feitos à unha. A agradável surpresa logo fez crescer nele um temor incontrolável. Era uma ameaça. Mas de quem? E por quê? Sempre fora um homem pacato, sem inimigos e desavenças. Nunca ofendeu ninguém, nunca brigou, discutiu, nem traiu, mas agora era ameaçado. O bilhete não estava assinado.

As horas de trabalho até o fim do expediente foram supliciosas, uma inquietação ardia sob o seu estômago , não era só medo, mas algo diferente. Pensava em cada possibilidade, em cada ato, em cada palavra pronunciada. Nada. Nada. Tudo não faz sentido. Passou o dia calado, não ousava olhar para ninguém do escritório. Será que era o Rodrigues? Não. Talvez o Ernesto? Também não. Calculava cada pessoa, mas não chegava em ninguém. Pensou em ciúmes, no entanto, ciúmes de quem e do o quê? Ocupava um cargo medíocre, não namorava, não tinha posses...

Todos que Nelson conhecia eram simpáticos e sinceros com ele, não havia motivos, nenhum motivo. Os dias seguintes foram como o primeiro, buscava razões, pessoas e atos que justificassem aquele bilhete. Não mostrou o bilhete para ninguém. Tentou comentar indiretamente com os conhecidos sobre algum caso de desavença ou ofensa que tenha ocorrido, mas todos diziam: "- Nada aconteceu, o escritório está em paz".

Conforme o tempo passava, a angústia aumentava, ao mesmo tempo, sentia uma lacuna em sua vida, lacuna que talvez preenchesse os motivos do bilhete, contudo, por mais que se esforçasse, não lembrava de nenhum ato exacerbado. Sua vida rumava sempre em uma mediocridade navegável, sem saltos ou quedas. A vida inteira em atos contidos.

Não sentia mais medo pela ameaça, sentia pena, muita pena de si mesmo. Não achava em sua vida inteira um ato que justificasse ou que fosse digno daquele bilhete. Deseja ardentemente que tivesse feito algo contra alguém, xingado, humilhado, traído, trapaceado, mas não. Nada. Aquele bilhete parecia cada vez mais significar algo que ele deveria ter vivido, sentia em seu peito que o bilhete de ameaça era algo perdido em sua vida, que talvez ele pudesse achar, no entanto, era preciso viver, viver como nunca vivera antes.


16/11/ 2008

Nenhum comentário:

Postar um comentário