quinta-feira, 15 de abril de 2010

#2# - Voo número 5

O embarque dos passageiros foi tranquilo, todos tomaram os seus assentos rapidamente, guiados pela aeromoça. G. sentou-se no banco do corredor, apesar de desejar o assento próximo à janela. Não se sentia bem, por isso queria apenas sentar em um cantinho e ficar quieto. Ao seu lado estava uma jovem elegante, sentada ereta que se distraia folheando alguma revista. Logo que ela havia sentado, G. sentiu o seu perfume, um cheiro difícil de se acostumar.

Os passageiros eram variados: jovens estudantes, uma criança, adultos e idosos resmungavam e chamavam pela aeromoça sem parar, acalmaram-se somente com a decolagem, mas logo recomeçaram.

G. não se sentia confortável, aliás nos últimos tempos não ia bem de saúde, uma crescente azia perturbava-lhe sempre, além das dores nas costas. A poltrona regulável parecia uma cama de pregos, por mais que se ajustasse, algo espetava. A jovem que ia ao seu lado exalava um cheiro enjoativo toda vez que mexia no cabelo. G. contorceu-se procurando o encosto e disfarçadamente fitou a jovem, havia nela algo de artificial, os olhos pintados, as sobrancelhas rentes, bochechas em fogo e os lábios... "É uma outra pessoa sem essa maquiagem", pensou G.

- Deseja beber algo? - perguntou a aeromoça.
- Não, obrigado.
- E a senhora?
- Um suco de morango, por favor.

O almoço seguiu tranquilo, todos mastigavam, exceto G., seu desconforto permanecia. Ver as pessoas ao seu lado comerem causava um ligeiro arrepio. Em certo momento, sentiu sede e uma estranha vontade de tomar o suco da jovem, o suco tinha aspeto de detergente. Quando ela deixou o seu acento por alguns minutos - "banheiro", pensou G. - pegou o copo e tomou um gole discreto.

- Doce demais... - resmungou com uma careta.

Do outro lado, uma mulher entoava baixinho uma canção de ninar:

- Na, na, na...na, na, na...Meu filhinho, filho, não pode....Aqui não é lugar...Assim...assim...

A criança devia ter três ou quatro anos e chorava forte. G. supôs que a criança deseja correr pelo corredor. A criança esperneava maléficamente. A cena trouxe a lembrança de sua velha mãe, um saudosismo amargo...A jovem voltou, desabou sobre o assento e novamente o perfume espalhou, mas agora misturado com o choro, o gosto do suco, a mastigação, a azia e a dor nas costas, tudo ocupava os seus sentidos numa crescente sensação de desconforto.

- O senhor está bem?
- Sim, sim, não se preocupe...
- Não me parece muito bem...

G. não respondeu, cada movimento dela, cada mínimo gesto, contribuía para o odor do perfume ficar mais forte. Além disso, era assustador mirar aqueles lábios vermelhos...Sentiu uma imensa vontade de ver aquela moça sem maquiagem...

Todos foram interrompidos pelo aviso de turbulência, ajustaram os cintos e... começou. No início, eram pequenas vibrações que iam e vinham, na terceira volta, adquiriu grande força. G. procurou fixar as mãos no apoio do assento, neste mesmo instante, a jovem teve a mesma reação, porém utilizou o mesmo apoio de G., ficando com a mão sobreposta a dele.

"Que mão gelada!", pensou.

Estranhas risadas metálicas surgiam sem parar da fuselagem. As vozes dos passageiros aumentavam e confundia-se com a turbulência, o choro da criança parecia mais alto. G sentia seus órgãos chacoalhar, mas logo se sentiu melhor, pois as dores nas costas e a azia desapareceram. Olhando em volta pode notar que a garota ao seu lado estava encharcada, de seus olhos escorriam grossas lágrimas que descia até os lábios, os olhos estavam maiores, as pálpebras estavam negras e formavam grandes manchas escorridas, o vermelho dos lábios adquiriu, com as lágrimas, um tom vivo, um rubor intenso.

- Os seus lábios...a boca - apontava G. - está sangrando, sangue!

Ela parecia não entender, mas depois de alguns segundos, levou a mão à boca e com a palma da mão esfregou os lábios para baixo, seu rosto adquiriu um aspecto disforme com o borrão vermelho esparramado pelo queixo. Ao olhar a sua mão, ficou histérica e soltou um grito de sereia, agitando-se ainda mais até esbarrar no suco de morango e derrubá-lo sobre G. Aquele líquido viscoso logo penetrou pelas calças e escorria lentamente sobre suas pernas...A última coisa que G. notou foi o repentino sumiço do choro da criança.

Depois, tudo se misturou com o ar gelado e desapareceu.


20/07/2009





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